Arrumar o homem (Dom Lucas M. Neves)

Não boto a mão no fogo pela autenticidade da história que estou para contar. Não posso, porém, duvidar da veracidade da pessoa de quem escutei e, por isso, tenho-a como verdadeira. Salva-me, de qualquer modo, o provérbio italiano: “Se non é Vera… é molto graciosa!”
Estava, pois aquele pai carioca, engenheiro de profissão, posto em sossego, admitindo que, para um engenheiro, é sossego andar mergulhado em cálculos de estrutura. Ao lado o filho, de 7 ou 8 anos, não cessava de atormentá-lo com perguntas de todo tipo, tentando conquistar um companheiro de lazer.
A ideia mais luminosa que ocorre ao pai, depois de dez ou quinze convites a ficar quieto e a deixá-lo trabalhar, foi a de pôr nas mãos do moleque um belo quebra-cabeça trazido da última viagem à Europa. “Vá brincando enquanto eu termino está conta” sentencia entre dente, prelibando pelo menos uma hora, hora e meia de trégua. O peralta não levará menos do que isso para armar o mapa do mundo com os cinco continentes, arquipélagos, mares e oceanos, comemora o pai-engenheiro.
Quem foi que disse hora e meia? Dez minutos depois, dez minutos cravados, e o menino já o puxava, triunfante. “Pai, vem ver!”. No chão, completinho, sem defeito, o mapa do mundo. Como fez? Como não fez? Em menos de uma hora era impossível. O próprio herói deu a chave da proeza: “Pai, você não percebeu que, atrás do mundo, o quebra-cabeça tinha um homem? Era mais fácil. E quando eu arrumei o homem, o mundo ficou arrumado!”.
“Mas esse garoto é um sábio”, sobressaltei, ouvindo a palavra final. Nunca ouvi verdade tão cristalina: “Basta arrumar o homem (tão desarrumado, quase sempre) e o mundo fica arrumado!”.
Arrumar o homem é a tarefa das tarefas, se é que se quer arrumar o mundo.

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